O Bem e o Belo

Acabei de ler os textos de Lottie Bevan e Alexis Kennedy dando conta dos detalhes acerca de sua situação no conflito com a Failbetter, a empresa fundada por Alexis e que ele deixou pra “seguir carreira solo”. Não sei quem, além de mim, tem interesse no desenrolar deste microdrama (“micro” no sentido da magnitude e visibilidade, todo drama é igualmente pungente). Mas posso tomá-lo como alegoria de algo mais geral e que pode interessar a quem não presta atenção ao que ocorre no nicho dos indie games. Talvez uma consideração mais abstrata consiga produzir interesse pelo caso particular, na medida em que ele instancia as relações que tentarei abordar aqui. Uma coisa que me pareceu muito vívida à época em que estourou o escândalo foi uma suspeita que senti em mim que de alguma maneira as acusações eram injustas, desmedidas, se não completamente falsas. Penso que esta sensação ficou expressa na minha ambiguidade e choque presentes na postagem que fiz ao retornar de João Pessoa e dar de cara com as acusações no momento em que eu tentava atrair amigos a conhecer o jogo. Nunca soube, e acho que ainda não sei, de onde vem esta suspeita; o que sei é que eu sentia que pessoas capazes de produzir algo tão belo, complexo e instigante quanto Cultist Simulator, algo que inequivocamente é o produto de muita dedicação, estudo e suor, e depois compartilhado, oferecido ao público por uma quantia módica, não podiam ser pessoas vis, desprezíveis, capazes das coisas de que eram acusadas. Minha escolha da pintura de Picasso era o retrato exato de meu desespero ante o pressentimento de uma grande injustiça, acompanhado pelo desconforto que causa a vicissitude de não poder se manifestar ainda e ter que esperar mais detalhes, torcendo para não estar errado. A verdade é que a raiz deste pressentimento é uma ideia meio obscura, amorfa, de que o bom, o correto, o aprovável, identifica-se com o belo, o deslumbrante, o sublime. Não sei se esta é uma disposição humana natural, uma postura à qual somos conduzidos pelo senso comum e que só se abandona por um esforço artificial; ou se é o resultado da assimilação cultural que nos impregna desde milênios, começando talvez na Grécia antiga. Sabemos que para os gregos antigos o Belo e o Bem eram um só. O caso de Frineia, a cortesã Mnesarete que era tão bela que serviu de modelo para a Afrodite de Cnido, é exemplar: acusada de crimes e levada para ser julgada, ao pressentir que seria condenada, seu defensor despiu-a diante dos juízes a fim de revelar sua beleza. Alguém tão bela não poderia ser má, e sua beleza seria na verdade o sinal de favorecimento pelos deuses, garantia de sua virtuosidade. Ela foi inocentada, e desde então a identificação entre o Belo e o Bom chegou até nós absorvida que foi pela síntese feita entre Filosofia e Cristianismo realizada na Idade Média: Deus é a um só tempo o Sumo Bem e a Suma Beleza. Mas também por numerosos contos, fábulas e estórias, que conectam os personagens virtuosos e admiráveis à beleza, enquanto que os vis e reprováveis são em geral grotescos, deformados, aversivos. Princesas que beijam sapos têm sua credulidade e capacidade de enxergar além das aparências premiadas com belos príncipes. Moças belas e virtuosas mas pobres passam por inúmeras provações até serem recompensadas com riqueza e nobreza ao final. A inveja, arrogância e crueldade dos antagonistas é sempre acompanhada de desproporção, deformidade, decrepitude. O caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde é um em que a separação ocorre no interior do sujeito mesmo, uma progressiva polarização que se manifesta moral e fisicamente. Há casos que fogem à regra, como no caso da Branca de Neve, em que a madrasta é bela, mas alterna sua beleza com a forma da velha bruxa (que no entanto não repele sua enteada com sua feiura). A Fera acaba se revelando um belo príncipe para a Bela, que observa suas virtudes para além de sua aparência horripilante. E os casos do Corcunda de Notre Dame e do Homem Elefante são desses que periodicamente nos lembram que a virtude nem sempre se acompanha da beleza, mas essa advertência só tem sentido porque vai contra a tendência dominante de julgar o disforme como mau. Os romances, filmes, mangás, todos oferecem heróis e heroínas belos, atraentes, reluzentes; ao passo que os vilões são seres furtivos, carregam cicatrizes, usam cores escuras, ou possuem uma beleza sinistra, nefasta, conquistada à custa de sofrimento alheio. Lilith, Elizabeth Bathory, a Condessa em Diablo 2, Liliana em MtG, são todas instâncias de uma beleza mantida à custa do vício. Muitos filósofos se pronunciaram acerca da identificação entre dever e beleza, como Nietzsche, para quem a vida devia ser conduzida como uma obra de arte, algo do qual você poderia se orgulhar de ter vivido. E o termo “dever” aqui tem toda a carga moral que significa: ser aquilo para o qual sua natureza te aponta, em vez de ceder a uma moralidade alienígena, de rebanho. Contra esta moralidade o indivíduo opõe outra, própria, derivada de sua natureza: ao seguir o que se é, chega-se à beleza de uma vida autêntica. E Wittgenstein, no aforismo 6.421 do Tractatus, afirma que “o ético e o estético são um só”. E se o ético é transcendental, é parte da nossa instalação (e por conseguinte o estético, já que são o mesmo), embora sobre isso não se possa falar, pois está no campo do inefável, do aforismo 7. Talvez seja por isso que sinto dificuldade em falar, em encontrar razões, fundamentos, para essa sensação de que verdadeiros artistas não podem ser maus. A questão agora talvez se desloque para o verdadeiros, afinal os enunciados lógicos podem ser avaliados, mensurados. Para isso basta jogar o jogo, e ver com seus próprios olhos se não estamos de fato diante de algo verdadeiramente belo. E eu posso mais uma vez dizer, depois dos fatos revelados nos textos citados no início, com misteriosa satisfação: Eu já sabia.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s