Minha vez de falar do Coringa

Eu sei que todo mundo já falou algo sobre o filme do Coringa e dificilmente resta alguma coisa relevante pra falar. Eu mesmo recomendo o vídeo do Christian Dunker que aborda o filme pelo aspecto patológico/psicanalítico, fazendo conexões entre o adoecimento individual e coletivo. Tem o vídeo do Jessé de Souza, que faz uma leitura política, das questões envolvendo lutas de classes (que no filme aparecem disfarçadas de luta dos pobres contra os ricos), neoliberalismo e revolta social. Li o texto do Zizek que achei meio confuso (normal, ele é hegeliano) mas enaltece o filme porque vê ali um “grau zero” a que todos teríamos que chegar e que marcaria a porta de entrada para um processo revolucionário. Ele deve estar se referindo ao “descarte” progressivo dos compromissos sociais com uma ordem opressora e cínica pelo qual passa o Arthur até se tornar o Coringa, matando todos no caminho, inclusive a mãe, e o pai em todas as suas encarnações (o pai imaginado, o apresentador, o Estado). E li um texto que criticava o filme pela razão oposta, por notar que falta ao Coringa a identificação com a insatisfação revolucionária, a tal ponto refratário ao filme que fez birra em renomeá-lo para “Curinga”. E há as centenas de textos mais rasteiros que se batem na questão de achar easter eggs no filme e conexões entre ele e o lore dos quadrinhos, ou comparar as encarnações do personagem a fim de defender que tal caracterização foi melhor que a do Joaquin Phoenix. Alguns afirmam que o filme é herético demais, heterodoxo demais pra ser um filme de superheroi, que é um filme sobre construção de personagem, sobre doença mental ou sobre comentário social. Mas os textos mais baixos são aqueles em que o autor reclama porque o Coringa não usou pistolas falsas, spray de riso, ou o Jokermobile. Queriam o Coringa-caricatura do Tim Burton, ou o Coringa-encarnação do caos do Heath Ledger. É que estamos em plena avalanche de filmes de superherois em que superseres, em lugares longínquos e afastados da vista e da participação das multidões, decidem o futuro e a sorte dessas mesmas multidões. Nesses filmes não há Chile nem Bolívia, não há senhoras indígenas enfrentando helicópteros do exército com fundas. E nosso papel é aplaudir nossos salvadores à distância, e debater entre nós se a representação de negros entre eles é suficiente e se as mulheres tiveram protagonismo. Será que algum deles é gay? Nada temam, algumas pistas deixadas de forma ambígua alimentarão as discussões. E críticos escreverão sobre como a juventude negra tem ido em peso assistir ao Pantera Negra e como isso é positivo para a representação racial; e outros reclamarão que o empoderamento feminino da Capitã Marvel produziu uma rejeição na audiência que só pode ser devida ao machismo de nossa sociedade patriarcal. Eu confesso que perdi o interesse nesse tipo de entretenimento há muitos anos já, por mais nostálgicos que sejam certos filmes. Eu li a saga do Warlock ainda criança, assim como a da Fênix Negra. Mas não fui ver os filmes, que conseguem ser mais rasos ainda, nada mais que a oportunidade para a indústria dos efeitos especiais exibir seus avanços técnicos mais recentes. Personagens menos dotados de substância existencial que o menino da mercearia que vem trazer o garrafão de água aqui em casa possuem poderes diametralmente exponenciais, o que pouco importa, porque sabemos que num filme de superherois o mal nunca triunfará e que a chance de sairmos dali com alguma angústia no coração é nula. Em tempos de Thanos, o personagem capaz de matar metade dos seres vivos do Universo com apenas um pensamento, o Coringa é somente um ser humano que faz algo ao alcance de qualquer um: atirar em agressores no metrô, e matar o apresentador-abusador que o humilhara antes e agora queria usá-lo como atração em seu show. Então talvez tenham razão, esse não é um filme de superheroi (nem de supervilão, que é um “super” com polaridade invertida), mas não porque o Batman não aparece, e sim porque não há ênfase no sobrenatural, no fantástico, no inacessível aos mortais. O que o filme mostra é que dar um tiro na cara do seu agressor, enfiar uma tesoura no olho do colega de trabalho escroto, são coisas ao alcance de todos nós, o tempo inteiro. E que só não o fazemos por conta das numerosas camadas de “amarras” sociais. “Só” é retórico aqui, ultrapassar essas camadas é algo tão trabalhoso que precisa de um filme inteiro para vermos alguém capaz de fazê-lo. É o “grau zero” do Zizek. É como cruzar a soleira do quarto central no filme Stalker, é só cruzar, mas cruze!

Mas o fato que me animou a escrever sobre o Coringa foi a notícia de que o filme bateu o record de bilheteria para filmes com exibição para maiores de 17 anos, mesmo sem ter sido exibido na China; ou seja, que adultos pelo mundo todo (menos a China, o que poderia desequilibrar a análise, porque adicionar um bilhão em qualquer cálculo quebra o cálculo) se identificaram mais com este filme que com qualquer outro anterior. E o filme não passou na China talvez por razões próximas às que certos críticos alegaram no Ocidente: por ser subversivo, explosivo, perigoso. Li que em muitos cinemas foi proibido assistir com máscaras, maquiagem ou cosplay. Na verdade o personagem Coringa não se identifica com a revolução, e diz isso expressamente pelo menos duas vezes no filme. Ele provavelmente acha o estado de rebelião agradável, engraçado, uma oportunidade para ele subir no capô de uma viatura da polícia e dançar diante de uma multidão com tochas na mão e atônita por trás das máscaras de palhaço. Mas para ele pouco importa o estado de rebelião ou o de normalidade controlada (pela polícia, pelos remédios, pelos acordos civilizatórios). O Coringa fará o que quiser, indiferente ao ambiente, porque ele já transvalorou o permitido e o proibido, o certo e o errado, o bem e o mal. Por isso ele não é um heroi, nem mesmo um anti-heroi, mas também não é um vilão. É alguém que vive em busca de realizar sua liberdade, mas como não admite limites para essa liberdade, se torna um indivíduo perigoso. Um predador solitário andando em meio a um rebanho de ovelhas que balem de medo porque a cerca foi rompida; e querem que a reconstruam, e o ponham do lado de fora, mas na verdade o mundo está lá fora e elas é que estão presas. Então fica fácil compreender por que o fascínio pelo Coringa, embora ele seja uma figura que não se presta como modelo para construir qualquer vida em sociedade. É um ser parasitário, e não dá nem pra pensar numa sociedade onde todos são parasitas e ninguém constitui laços mútuos de respeito recíproco. Mesmo assim, inviável como projeto alternativo coletivo, o Coringa encarna um sonho de liberdade, uma demanda primitiva por romper todos os pactos e atender diretamente aos desejos primários, e isso fala muito intimamente a cada um de nós. Uma coisa que sempre me intrigou no Coringa era o fato de uma figura caótica, psicótica, conseguir arrastar comparsas para seus planos tresloucados e fascinar multidões. A explicação dada até então consistia em dividir os cidadãos entre pessoas más (estas se tornariam criminosas e seriam atraídas pela força gravitacional do mal maior que é o supervilão) e pessoas boas (o grosso da população, gente ordeira e trabalhadora, que por não dispor de meios para fazer frente à ameaça do supervilão, fica na condição de vítima, passiva e dependendo de um campeão que a proteja). No filme não é assim. A população é retratada como uma unidade em conflito, perpassada por lutas e violência de parte a parte. A ordem aparente é o resultado de uma dominação que produz uma insatisfação latente, e o Coringa é capaz de pô-la em movimento. Em função dos seus interesses, claro. Mas ficou pra trás a visão pueril, simplista, conservadora e falsa da divisão entre “bons” e “maus”. Precisamos falar do Coringa porque as pessoas estão se identificando com ele, o que aponta a insuficiência do paradigma Bem x Mal, heroi x vilão, a menos que se queira acreditar que somos e vivemos entre milhões de pessoas más. O que não pode ser o caso.

Então hoje de manhã li um texto da Lottie Bevan sobre a dureza que é manter a identidade indie num mundo repleto de blockbusters mainstream (os jogos AAA de que ela fala). E cita a estratégia da Riot de lançar um vídeo de uma banda de k-pop que fez as visualizações chegarem a 38 milhões em uma semana. Então penso: também aqui a conexão com as pessoas se fez, embora o público da Riot e do k-pop não seja o mesmo que o público 17+ do Coringa. De fato, nunca entendi como alguém pode gostar de pop-stars, gente que passa a impressão de serem rebeldes mas cuja rebeldia se limita a fazer poses extravagantes, gesticular muito e usar roupas experimentais da indústria fashion. Não cruzam nenhuma soleira, não oferecem nenhuma saída, seja coletiva, seja individual. Na verdade nos dizem: ouça minha música e acorde no horário para trabalhar, se sentindo alguma coisa melhor que os outros porque gosta da minha música. Então a Lottie diz que gosta de pop-stars. Eu não gosto. Não preciso dizer que gosto, não preciso contemporizar, porque não vivo disso. Mas se vivesse, também diria que não gosto, correndo os riscos de invisibilização que empurram os marginais cada vez mais para a margem. Ontem eu jogava Graveyard Keeper e adiei o quanto pude o contato com a Inquisição, mas o jogo limita seu progresso se não o fizer. Então depois de colaborar para que queimassem mais uma mulher sob acusação de bruxaria, cheguei no necrotério e a caveira falante me reprimiu. Diante da minha justificativa de que não tive escolha, ela disse: “Se eu fosse desenterrada mil anos a partir de agora, aposto que encontraria as pessoas divididas em grupos e se agredindo mutuamente, cada grupo alegando defender o bem comum. E encontraria pessoas que dizem compreender o absurdo disso, mas que tomam parte mesmo assim, alegando não ter escolha”. E a caveira falante está certa, e podemos ouvir verdades profundas ditas por uma caveira num jogo, porque a verdade independe sempre do emissor. Lottie criticou a sexualização das mulheres na campanha da Riot. Mas pensando bem, quem se importaria se não houvesse algum conteúdo sexualizado? Quero dizer, quem quer ver pessoas comuns em poses normais fazendo coisas triviais? Quando eu era jovem pensava que a televisão devia mostrar pessoas comuns falando de suas vidas cotidianas. Hoje penso: quem veria isso? Freud nos conta como a civilização converte o desejo sexual em trabalho e sublimação. Quanto mais civilizados, menos fazemos sexo. Resta então a simbolização, a referência em figuras ideais. Se nem isso for permitido, se toda a menção ao sexo for eliminada da civilização, penso que o Coringa se torna cada vez mais persuasivo para nós.

Temos então dois extremos, ambos inacessíveis à multidão dos mortais, e por isso inviáveis e inverossímeis: o Coringa no pólo da negatividade total da civilização, e os k-idols no pólo da aceitação passiva e alienada de todos os controles. Falta então uma figura capaz de romper com os acordos, mas de uma forma que seja possível a todos nós, que não signifique ao mesmo tempo se tornar um pária, um inimigo público a ser trancafiado num manicômio pelo resto da vida. Então, vendo no Facebook uma postagem do Chaotic Cinema onde mostraram o filme “Matou a família e foi ao cinema”, sugeri que vissem também “O cheiro do ralo” (Drained, em inglês). Engraçado, pensei muito sobre isso e cheguei à conclusão de que é o melhor filme brasileiro que já vi. É brasileiro sem ser folclórico, é surreal sem ser alienígena. É baseado num livro do Lourenço Mutarelli, quadrinista que fez o papel do segurança de vermelho no filme, e que acompanho desde 1990. Ele fazia ilustrações para a Turma da Mônica nos estúdios do Maurício de Souza e estreou com o quadrinho Transubstanciação. Lembro que dividi o quarto um tempo com o Jean Wyllys em 1992, ele estava fascinado pela Madonna na época, com aquela turnê onde ela simulava orgias e masturbação com crucifixos e tinha um grupo de dançarinos gays. Fui morar em Salvador e quando voltei pra pegar minhas coisas ele me disse que tinha lido e “sentiu o peso” do quadrinho. Foi como um tapa na cara, coisa que na época eu queria fazer com todo mundo à minha volta. O filme mostra um personagem crível, Lourenço (o mesmo nome do autor), alguém que pode ser seu vizinho, o gerente da sapataria, o empacotador no supermercado, o cara que lava seu carro. Caramba, ele pode ser você! A única coisa que talvez precise de explicação para um gringo é o sapo com a boca costurada. A onipresença da bunda, não. Se um gringo não pode entender que uma parte do corpo pode ser alvo de adoração, então ele não é capaz de entender nada. Lourenço, o protagonista, é odioso às vezes, cruel outras, e digno de pena em outras. Como o Coringa, ele busca se conectar consigo mesmo, e começa rejeitando sua identidade (o cheiro que viria do ralo, não dele), e vai progressivamente se tornando o que é. Ele rejeita o casamento de aparências, o que é louvável, mas o faz demonstrando imensa insensibilidade. É que não há como romper acordos sem ser cruel. E ao fim não há inocentes naquele mundo, que é o nosso: a bunda sabe que é admirada, e negocia seu emprego; a drogada se sente humilhada, mas dá seu troco várias vezes, e não é impedida. Porque faz parte das relações, do jogo, bater e apanhar. E subir no ringue de novo pra tentar mais uma vez. Por isso Lourenço não tolera o sujeito que diz “ter princípios”: a ingenuidade morre na gente depois de uma certa idade, e tudo que tentemos fazer passar por ela após isso só pode ser cinismo. Mas se Lourenço não chega a se tornar um vilão, nem mesmo um anti-heroi, nem um ser perigoso como o Coringa, tampouco se torna uma figura admirável. É só mais um filho da puta que não rompe definitivamente com nada grandioso, mas ganha consciência de quem é e do que faz. Não imagino ninguém que diga “quero ser como o Lourenço”, como vi que multidões estão visitando as escadarias do Bronx para imitar a dança do Coringa, muitos fantasiados e postando fotos da empreitada no Instagram. É que a gente já é como Lourenço, ainda que poucos admitam isso. Lourenço é um anti-Coringa, e seu mundo surreal com ralos e olhos de vidro aponta mais para a vida vivida por nós que o realismo cru do mundo do Coringa, que aponta para a fantasia do delírio escapista. É preciso ser meio parvo para ir numa escadaria imitar uma dança fantasiado. Neste sentido, os públicos do Coringa e do k-pop se dão as mãos. É o que eu disse a um amigo comentando sobre o fenômeno: essas pessoas não assistiram ao mesmo filme que eu. Ao que ele arrematou: são como as formigas, que vivem entre nós mas estão num planeta completamente diferente. E eu penso que é uma pena que as vidas e escolhas delas decidam tanto e em aspectos tão relevantes os limites da minha vida. Mesmo assim, indico a quem ainda não viu, que veja: o Coringa e O cheiro do ralo.

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