Uma história muito, muito triste

Eu tenho comentado recentemente sobre um certo jogo (Cultist Simulator, e sobre o escritor e a empresa por trás dele) que me parece conseguir uma entusiasmante combinação de narrativa fantástica e inovação em mecânicas, e no seu poder de replicar de forma bastante complexa muitos detalhes de nossa vida, valendo-se de um mínimo de linguagem (cinco verbos apenas). Tenho elogiado a clareza e inteligência do seu criador, o Alexis Kennedy, e até iniciei uma campanha da qual me propus a escrever os logs a fim de produzir um relato romanceado. Não retomei porque é preciso tempo e tranquilidade  prévia para fazê-lo, e tenho usado meu tempo de jogo justamente para relaxar e me distrair. Mas assim que puder, os logs continuarão. Gosto muito desse jogo. Gosto tanto que quando os criadores decidiram lançar um novo, conectado ao mesmo universo temático, eu já marquei na minha wishlist no Steam. E no site havia uma contagem regressiva para o lançamento do crowdfunding que eu acompanhava eventualmente. Até iniciei uma tradução espontânea e independente dos textos, na esperança de torná-lo mais popular junto ao público falante do português, mas parei por causa da falta de tempo, do volume de trabalho necessário, e porque me dei conta de que ninguém que conheço iria jogar. Sem ter com quem compartilhar meu entusiasmo, mantive-me na espectativa das novidades e sonhando com um novo dlc que eu sei que não virá.

No dia do lançamento do novo jogo, contudo, não houve nada, apenas um post no site oficial dizendo que o Alexis estava mal e que não havia previsão de voltar a trabalhar no projeto. Estranho. Isso foi no dia três de setembro, duas semanas atrás. Passou-se um tempo e, sem novidades, procuro no fórum do Cultist Simulator do Steam e vejo, dois dias atrás, que Alexis está sendo acusado de abuso (sexual e não sexual) por mulheres da indústria dos games, e sendo chamado de “macho predador”, abusador, por nomes respeitados no nicho dos jogos indie. Quase caí pra trás. Venho pensando em escrever um post sobre isso, dentre várias outras coisas, e tudo foi ficando tão grande que terei que separar em três posts distintos. Mas hoje Alexis e sua companheira, Lottie, se pronunciaram, e as coisas que disseram me fizeram achar urgente escrever um post sobre este acontecimento, que afinal não diminui o que quero abordar na outra reflexão que escreverei nos próximos posts. O fato é que tem havido um boom no Twitter envolvendo vários homens da indústria de indie games, que pelo fato de ser independente e de baixo orçamento, é pouco regulamentada. Digno de nota também é o fato dessa onda de acusações estar em linha com uma abordagem muito familiar em nossos dias, animada por um espírito de “caça às bruxas”, e a série de artigos (em inglês, quem não conseguir ler diretamente pode usar o Google Translator) que colocarei a seguir situa o debate exatamente nisso: o que exatamente queremos fazer, o que exatamente estamos fazendo, e qual o sentido disso tudo?

Primeiro, a notícia que li onde as alegações foram resumidas, de um site grande e dedicado a gamesRock, paper, shotgun.

Agora, a declaração de Lottie Bevan, falando como mulher, feminista e profissional da indústria dos games sobre a cultura do linchamento.

Num certo ponto do texto ela diz que Alexis quase cometeu suicídio (!!!), mas outro nome citado nos escândalos de fato se suicidou neste sábado, e ela pôs o link mas achei importante colocar aqui em separado. O trágico é que ele ficou conhecido por um jogo indie que trata da depressão, sofrimento psíquico e dificuldade de socialização: Night in the Woods.

Por fim, a declaração de Alexis Kennedy. Os textos dele e de Lottie saíram ontem, dia 16 de setembro, e acabei de lê-los.

O que posso dizer de minha parte é que minha simpatia e solidariedade vão para Alexis e Lottie, e a Failbetter se tornou menor aos meus olhos depois desses ocorridos. Mas a situação toda me faz pensar nos estereótipos que continuamos alimentando apesar de tantas provas em contrário. Pensamos que nós latinos somos passionais e que o sexo tem um papel central em nossas vidas, mas que outros povos e culturas se relacionam de modo frio com os sentimentos e desejos; pensamos que pessoas que trabalham com criação e arte são liberais e capazes de experimentar a vida de uma forma não amesquinhada; pensamos que gente disposta a uma vida sexual aberta e poliamorosa é capaz de lidar com os sentimentos mobilizados e agir de forma equilibrada; pensamos que as pessoas no primeiro mundo já estão num momento mais adiantado do debate de ideias e que a veiculação de boatos sem provas é algo que só ocorre na periferia do mundo ocidental; e pensamos que a indústria dos games é um lugar mágico e feliz, em vez de ser mais um ramo da indústria capitalista, com todos os seus problemas e conflitos. No fim as coisas são mais parecidas aqui e acolá do que pensamos. Sei que sou apenas mais um nerd perdido no Brasil, mas penso que certos tipos de pessoas são raras e estão espalhadas pelo globo, muitas vezes vivendo sem receber o conforto da aprovação dos demais. Quisera que ele sentisse esse conforto, que é genuíno de minha parte. Infelizmente ele nunca saberá disso, pois a língua nos separa. Ao fim, achei tudo muito triste. Aliás, não sei até que ponto isso tem a ver com meu envelhecimento, mas tenho visto tantos absurdos e minha reação tem sido sempre essa, a de uma imensa tristeza. Porque tudo me parece um desperdício, uma perda de tempo, de vida, de sentimentos, de energia. Não precisava ser assim, não era pra ser assim. É como se continuássemos sentenciando Sócrates a beber cicuta. Todo aquele desespero que se vê nos diálogos de Platão, de quem presencia sua sociedade condenando a Verdade à morte, reaparece com força em nossos dias. E as coisas são tão complexas e entremeadas que não há solução fácil. Não sei que preço teremos que pagar, quão caro será, para que isto pare. Até lá, fica essa sensação de tristeza profunda.

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